4 de fevereiro de 2008

O Velho

Aquele velho estava lá, sentado e dormindo no banco do metrô. Sujo, sujo, tão sujo que ninguém sentava ao seu lado ou ousava se aproximar. Lá ele ficou afundado em sua bebedeira na linha verde do metrô, viajando entre as estações Imigrantes (naquela época) e Vila Madalena.
Entrou o executivo com sua pasta na mão, com seus problemas na cabeça e com sua gravata no pescoço. Não diria que a gravata era assim uma Armani, pelo menos por enquanto, afinal ele estava viajando de metrô. Talvez fosse sim, era uma Armani legítima, a única que possuía e por isso vinha concentrado no seu novo projeto que o promoveria de cargo, sua alforria das viagens de metrô. Não me pareceu provável. Ele desceu na estação Clínicas. Eu continuei. Não observei a sola de seus sapatos mas tinha observado bem a sua postura, sabia com toda certeza que era um trabalhador cansado, retornando para a casa. Assim são os homens de terno.
O velho continuava lá. O casal feliz entrou. Não sentiram a presença do velho. Talvez se ele tivesse acordado e dito coisas que velhos bêbados e sujos costumam dizer. Só poderiam notar algo que fosse suficientemente barulhento e poderoso para provocar um pequeno chiado aos seus ouvidos. A presença do veho não tinha som. De qualquer forma minha atenção não se prendeu muito ao casal e os notei mesmo quando estavam ao lado do executivo. Desceram todos na mesma estação. Casais são sempre muito óbvios e não foram mais atraentes que os outros passageiros. Estudantes sim, existem vários tipos, mas era um período de férias, logo, eles não estavam tão assim á vista. Não havia nenhuma freira, era uma sexta-feira, e era noite, no sentido em que ia o trem era normal não estar muito cheio.
O velho não se mexia. Não se movia a não ser pelo balanço do próprio vagão. Um outro senhor sentado nos acentos reservados de cor cinza com uso preferencial para idosos, pessoas com crianças de colo, obesos e deficientes físicos, notou a presença do velho bêbado sujo. Seu pensamento não me era óbvio, esses homens velhos já são tão marcados por expressões da vida que vi histórias. O passado agia de forma que, o que pensava agora ao observar aquela situação não era nada claro, tentei julgá-lo mal humorado, rabugento, desligado e muito solitário. Não era bem o caso. Eu podia ver que ele não achava a situação do velho bêbado sujo assim tão absurda, ele não o condenava.
O velho bebado e sujo continuou lá. Eu não cansava de notar a sua presença, e tentava notar todos a sua volta, observar se sua presença era também notada pelos outros passageiros. Não encontrei nenhum conhecido. Os que não o condenavam por aquela situação não foram suficientemente tocados pela sua presença, e ali o velho bêbado sujo permaneceu. Eu tentei adivinhar porque ninguém o acordava. Desci na estação Paraíso.

Não acordei o velho, nem ninguém o acordou, não imaginei porque o velho havia chegado ali, nem como, nem porque, nem quando saiu, o velho bêbado e sujo era apenas um viajante na linha verde. Sujo porque vi, bêbado porque julguei, ia e voltava porque imaginei.

0 comentários: